O movimento Memphis influenciou o design no mundo ao ampliar as possibilidades de comunicação dos objetos

A matéria “Alma do design século XX”, foi elaborada pela Canteiro e publicada na edição 8ª edição da revista iDeia Design (www.revistaideia.com).

“Mas no fundo do meu coração
Eu sei que não posso escapar
Oh, mamãe, pode ser realmente o fim
De ficar preso dentro de móveis
Com o blues de Memphis de novo”.

Bob Dylan

Foi de uma música de Bob Dylan que veio a inspiração para o movimento que marcou a história do design no mundo. Inicialmente despretensioso, o Memphis Group passou a dar mais valor às possibilidades estéticas que à ergonomia dos móveis, libertando o design das amarras da funcionalidade absoluta em prol do livre desenvolvimento criativo das formas. Como expressão de um espírito do tempo, as ideias do grupo italiano introduziram emoção nas linhas frias do design mundial.

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Escultura – Chaos | Martine Bedin

A proposta do Memphis, que existiu entre 1981 a 1988, trouxe consigo uma discussão crítica acerca dos paradigmas instaurados pela Bauhaus desde 1919, que até hoje repercutem sobre o design. O projeto dessa escola, fruto do pensamento racionalista moderno, introduziu formas e linhas simples nas artes, no design e na arquitetura, trazendo visuais mais limpos e sem adornos. As formas, pensavam os alemães, deveriam ser definidas pela função do
objeto, e não mais pelo capricho pessoal ou pela tradição histórica.

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Pintura óleo sobre tela | Nathalie Du Pasquier

Seis décadas depois, de maneira igualmente contestadora, mas às avessas, o Memphis Group desafiou as convenções do design em sua época, que ainda privilegiava formas, cores e texturas convencionais. Em contraste, inspirado por movimentos como o Art Déco e a Pop Art, o grupo buscou uma alternativa mais criativa ao design e ofereceu peças que abusavam das cores, dos brilhos e de formas que, no calor do momento, chegaram a ser consideradas extravagantes e foram alvo de muitas críticas. “O famoso designer George Nelson me disse, certa vez: Memphis não é um guia, é um estado de alma. Se você não sabia que o século XX tinha uma alma, agora você sabe disso”, brinca a designer Martine Bedin, uma das fundadoras do grupo.

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Pintura óleo sobre papel | Nathalie Du Pasquier

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Escultura – Ait-baha | Martine Bedin

Origem musical

Apesar do nome tipicamente norte americano, o movimento nasceu nas noites frias do inverno milanês. Martine relata que o nome apareceu, pela primeira vez, quase que por acaso, como um rabisco no caderno do arquiteto italiano Michele De Lucchi, em meados de dezembro do longínquo ano de 1980, em uma reunião do grupo no pequeno apartamento de Ettore Sottsass e Barbara Radice.

“Estávamos ouvindo uma música de Bob Dylan chamada ‘Stuck Inside of Mobile with Memphis Blues Again’. Como ninguém se preocupou em mudar o disco, Bob Dylan continuou uivando ‘the Blues Memphis again’, até que Sottsass disse: ‘Já sei! Vamos chamar a nossa coleção de móveis de ‘Memphis’. Todos concordaram, era um grande nome. Trazia referências a Blues, Tennessee, rock n’ roll, subúrbio americano e, ao mesmo tempo, à antiga capital dos faraós no Egito, a cidade santa do Deus Ptah”, recorda Martine. Além dos anfitriões Sottsass e Radice, e da própria Martine, outros nomes estavam presentes naquela noite de fundação: Michele De Lucchi, Aldo Cibic, Matteo Thun e Marco Zanini.

Martine é a criadora da luminária campeã de vendas “Super”, e desenhou outras 27 peças para todas as coleções lançadas pelo Memphis Group. “Eu também projetei o primeiro cartaz para o primeiro convite do movimento”, afirma. O conceito “design emocional” propriamente dito é desconhecido pela designer, mas ela arrisca alguns palpites sobre o tema. Afinal, como ela propõe, o nome, em si, é bastante sugestivo. Ela acredita que, para projetar qualquer coisa, é preciso embutir nela uma dose de emoção. Do contrário, é melhor não fazê-lo. “Você pode imaginar uma música não emocional? uma pintura não emocional?”, questiona.

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Escultura – Mandya | Martine Bedin

A designer conheceu Ettore Sotssas, principal ícone do Memphis, em 1979, quando ele tinha 60 anos. Martine estava na Triennale di Milano, um museu de design e local de eventos em Milão, apresentando a construção de uma pequena casa e de uma cadeira. “Ele me perguntou quem eu era, e eu respondi perguntando-lhe: “Quem é você?” Ele riu e, em seguida, me convidou para trabalhar com ele em Milão. Ele tem sido meu mentor e teve uma enorme influência não apenas no meu trabalho, mas também em minha própria vida. Me ensinou a ser livre. Passei a viver e trabalhar sem qualquer autoridade, pura e provocativamente livre. Comecei a minha vida buscando a vanguarda e ainda estou no limite do mercado”, relata.

Antes do Memphis, Sotssas já desempenhava papel fundamental no pensamento sobre o design. Ele integrou o Studio Alchimia, criado em 1976, grupo que enfatizava o papel conceitual dos objetos. Nesse período, os fatores emocionais, mais do que os elementos racionais, passaram a ter grande influência no design, potencializando relações da ordem do sensível dos usuários com aqueles objetos, de forma que sua funcionalidade não desempenhava mais o papel primordial nessa relação.

A artista Nathalie Du Pasquier, também integrante do movimento, explica que a experiência de seus anos junto ao Memphis marcou o início de sua vida profissional. Em 1987, quando o grupo foi dissolvido, ela se tornou pintora. Nos anos seguintes, começou a produzir construções abstratas que se tornaram tema de suas naturezas-mortas. “Eu não posso dizer que fui influenciada pelo estilo de Memphis, pois eu era parte dele. Eu era jovem na época e havia pessoas no grupo que eu admirava muito, essas pessoas tiveram influência sobre mim, nas formas de fazer e de pensar sobre a importância de objetos e dos rituais em torno deles. Eu não posso dizer que Memphis me influencia, mas por essa experiência eu me tornei o que sou agora”, relata.

Memphis e o design brasileiro

Segundo o arquiteto italiano e integrante do movimento, Marco Zanini, hoje radicado no Rio de Janeiro, apesar de não terem existido designers brasileiros representantes do Memphis, o ofício no Brasil foi influenciado por este movimento, sobretudo pela quebra do velho paradigma “forma segue função”. Para ele, no país, o Memphis introduziu outras possibilidades ao design, além das ergonômicas, como funções existenciais, de comunicação e expressões de signos culturais.

No final do ano passado, ele realizou a cenografia da “Exposição Memphis”, montada na loja de design Firma Casa, em São Paulo. A exposição trouxe objetos diretos da Itália que puderam ser adquiridos na loja. “Acho que é sempre importante para um país como o Brasil mostrar às novas gerações aquilo que aconteceu no passado e que influenciou profundamente a cultura do design”, afirma.

Ele relata que a trajetória do grupo influenciou seu trabalho posterior de maneira marcante, o que, no entanto, não o impediu de realizar projetos diferentes, com pouca relação com as pesquisas do Memphis. “O movimento abriu várias portas e quebrou muitos muros que fechavam a profissão de designer a um círculo restrito. Afinal, muitos dos artistas do grupo não tinham uma formação oficial”, ressalta.

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