O projeto de iluminação do teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte, buscou aliar o resgate histórico à aplicação do que há de mais sofisticado em termos tecnológicos.

A matéria “Design e luz sobre as memórias de um teatro”, foi elaborada pela Canteiro e publicada na edição 8ª edição da revista iDeia Design (www.revistaideia.com).

As tesouras, peças que compõem o suporte do telhado, encobertas por mais de 30 anos, foram reveladas novamente. Durante o processo de reforma do Teatro Francisco Nunes, foram muitas as surpresas que possibilitaram novas formas de pensar a iluminação do espaço. Interditado pelo Corpo de Bombeiros em 2009, o famoso teatro foi reaberto em 6 de maio último, após longo processo de revitalização. A abertura ocorreu durante a 12º edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH), com um projeto luminotécnico especial, que buscou no que há de mais sofisticado na área, ferramentas para valorizar os traços e características originais do espaço.

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Fotos: Ludmila Loureiro

A madeira original das tesouras data dos anos 1950, quando o Chico Nunes, como é carinhosamente chamado, ou teatro de Emergência, como conhecido inicialmente, foi construído. O teatro foi inaugurado pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima, em uma época em que a cidade era carente de espaços destinados à cultura e o Palácio das Artes ainda estava em construção. Autor do projeto, o arquiteto mineiro Luiz Signorelli, de traços clássicos e versáteis, foi influenciado pela estética modernista de Niemeyer.

Na década de 1980, o Francisco Nunes passou por sua primeira reforma, que, do projeto original, manteve apenas sua volumetria. Em seu interior, foram várias descaracterizações. Após a interdição, por apresentar sinais de fragilidade estrutural e risco de desabar, um cuidadoso restauro foi proposto, buscando revalorizar as características do projeto original de Signorelli.

A estratégia da arquiteta mineira Mariluce Duque, responsável pelo restauro, foi o de jogar luz sobre a história do teatro Francisco Nunes. Em parceria com a Templuz, empresa especializada em tecnologia e iluminação, foi possível contrapor os rastros de um tempo antigo com o que há de mais contemporâneo em termos de luminotécnica.

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Fotos: Ludmila Loureiro

Mariluce relata que, quando o telhado foi retirado para a reforma, foi uma surpresa encontrar as tesouras, compostas por madeira revestidas em lâmina de garapa. “Fiquei pensando que isso era um elemento que merecia destaque. A solução para valorizar esse elemento foi uma iluminação especial”, ressalta. A ideia inicial era a instalação de refletores, mas havia a vontade de que a fonte de luz não fosse percebida pelo público, dando apenas um efeito discreto. Para tanto, a solução encontrada foi a utilização de uma fita de LED inserida atrás das tesouras.

A lighting planner da Templuz, Paola Duarte, explica que esse foi justamente o local em que ela teve o maior receio de instalar iluminação, mas que obteve o resultado mais interessante. “A princípio essas tesouras não iam aparecer, mas, como se trata de uma revitalização, cada hora surge uma novidade. O projeto de iluminação, por exemplo, foi revisado nove vezes. Sem dúvida, a maior surpresa foram as tesouras. Optamos por destacá-las e assumí-las de maneira conceitual. Por isso, propusemos essa iluminação indireta e o resultado ficou ótimo”, relata.

O conceito da iluminação foi baseado na utilização do LED para agregar luz e segurança, uma vez que o teatro utiliza materiais inflamáveis como madeira e carpete, ressalta Paola. Para ela, o LED é um caminho sem volta. “Fizemos muitas reuniões com a arquiteta Mariluce e toda a equipe que estava tocando a obra para compatibilizar essas informações. Não é um projeto de mesa, é um projeto que exige que você vá à obra, converse com outros profissionais e dialogue com todo mundo. Não posso especificar um produto que atende a minha parte, sem consultar a todos”, afirma. O resultado, para a arquiteta, ficou excelente. “A fita de LED possibilitou uma luz difusa e bela que, com outra tecnologia de iluminação, esse efeito não teria sido alcançado”.

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Fotos: Ludmila Loureiro

Mariluce Duque explica que foi feita uma pesquisa extensa sobre a história do teatro, para identificar as mudanças necessárias na estrutura física, que possibilitasse um maior conforto para o artista, o público e corpo técnico, e que, ao mesmo tempo, trouxesse a tona o sistema construtivo original do teatro. “Resgatamos essa história em todos os sentidos, pensando sempre em intervenções numa situação contemporânea onde as pessoas pudessem identificar claramente o que é novo e o que é antigo. Buscamos mostrar o sistema construtivo, influenciados por essa arquitetura brutalista de sistemas aparentes”, destaca.
Iluminação móvel

Outro grande destaque da reforma foi a parte cenotécnica do palco, que antes possuía maquinaria manual e agora possui um sistema misto: motorizado e de contra pesagem para as varas de luz e cenário, facilitando as manobras e a consequente montagem dos espetáculos. Como explica a arquiteta, foi utilizada a proposta contemporânea de instalar trilhos que possibilitassem um espaço mais flexível e abrigasse diferentes tipos de espetáculos. “A ideia era trabalhar com flexibilidade de luz nos trilhos e ter vários tipos para atender as exposições móveis”, afirma.
Já o foyer do teatro foi ampliado e a remoção do mezanino, construído apenas na reforma de 1982, deixou à mostra o pé direito duplo do ambiente, como no projeto original. “Tivemos esse cuidado de identificar o que foi positivo na reforma de 82 e o que veio a descaracterizar. A luz cumpriu essa função. Na plateia, a luz valorizou o que era original, já no foyer ela trouxe o que há de mais contemporâneo possibilitando o melhor uso do espaço com uma luz mais âmbar para dar um clima intimista. Propusemos um mix de iluminação com muitos efeitos para várias propostas, possibilitando o melhor uso desse espaço”, completa.

Para a arquiteta, a luz de teatro tem essa característica: ela é cênica, cumpre papel estético e ao mesmo tempo, precisa ser funcional, servindo ao público que vai assistir aos espetáculos. “A luz deve possibilitar a leitura e a orientação do espectador sem perder a aura intimista do teatro”, explica. Para ela, esse é o ponto fundamental e foi um dos maiores desafios do projeto luminotécnico. “A Templuz é parceira, trocamos muitas ideias. Fizemos vários testes em conjunto. Foi uma troca muito boa”, destaca.

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