A cultura afro-brasileira em destaque pela fotografia

Matéria elaborada pela Canteiro publicada na edição edição 12 da revista iDeia Design (www.revistaideia.com)

Zeladores de Voduns / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série ”Zeladores de Voduns” sobre a saga de Nã Agotimé. / Foto: Márcio Vasconcelos

Nã Agotimé, a rainha negra, trouxe para o Brasil a memória de um clã mágico e místico que, desde tempos imemoriais, cultuava os voduns. Ela saiu de Daomé, hoje Benim, na África, nos porões de um navio do tráfico negreiro após ser vendida como escrava pelo novo rei de seu povo. Depois de uma passagem pela Bahia e o encontro com os Nagôs, a rainha chegou ao Maranhão. Lá, ela voltou a ser rainha e fundou a “Casa das Minas” em meados do século XIX.

Inspirado pela história peculiar que deu origem ao tambor de Mina, o fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos (1957) decidiu fazer o caminho inverso. Ele viajou ao Benin, acompanhado do antropólogo africano Hippolyte Brice Sogbossi, para realizar uma pesquisa e documentação fotográfica da atual situação de terreiros e seus respectivos chefes. A pesquisa deu origem ao projeto “Zeladores de Voduns: do Benin ao Maranhão (2010)”, exposição fotográfica sob a forma de portraits.

Estética do Terreiro / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série “Estética do Terreiro”, realizada nos Pajés de Negro, religião praticada na Baixada Ocidental, borda oeste do Maranhão, nordeste do Brasil. / Foto: Márcio Vasconcelos

Na trilha do Cangaço / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série “Na trilha do Cangaço”, um ensaio fotográfico pelo sertão que Lampião pisou. / Foto: Márcio Vasconcelos

A mostra já passou pelos museus Casa de Nhozinho e de Artes Visuais, no Maranhão; no Casa do Benin, em Salvador e no AfroBrasil, em São Paulo. “Esse foi um dos trabalhos mais premiados que tive. Quando penso em guardá-lo na gaveta, surge um convite para nova exposição em eventos de africanidade dentro e fora do Brasil”, afirma. O projeto foi ainda vencedor do 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras de 2010, da Fundação Cultural Palmares/Petrobras.

Márcio Vasconcelos é apaixonado pela cultura brasileira, que tem raízes na diáspora africana. “Essa mão
de obra não foi apenas de corpos escravos, com eles vieram também memória e cultura. A riqueza cultural do Brasil vem dos negros”, afirma. Se não fosse fotógrafo, Márcio seria músico. “Sou um profundo apreciador da musica, sobretudo, da negritude e a forma como eles se expressam”.

Na trilha do Canhaço / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série “Na trilha do Cangaço”, um ensaio fotográfico pelo sertão que Lampião pisou. / Foto: Márcio Vasconcelos

 

Visões de um poema sujo / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série “Visões de um poema sujo”, trabalho inspirado no Poema Sujo de Ferreira Gular


Ele explica que, para além do documental, sua busca sempre foi por uma fotografia autoral, diferente, sobre o que nunca foi visto. “É muito fácil ir pra rua fotografar uma manifestação de cultura popular. É muita cor e muita beleza como num teatro a céu aberto. Agora, se você tem um cuidado mais artístico, ela vai se destacar desse universo de muita gente fazendo a mesma coisa. Você vê uma foto minha e sabe que fui eu pelo movimento. Tem gente que diz que sente a música em minhas fotos”, relata.

Márcio cursou engenharia mecânica e educação física e, com o primeiro salário como funcionário do Banco do Brasil, comprou a primeira câmera profissional. Há vinte anos, saiu do banco e criou seu próprio estúdio para trabalhar exclusivamente com fotografia. Há mais de uma década vem se dedicando a registrar manifestações da cultura popular e religiosa dos afro-descendentes no Maranhão. É autor do projeto “Nagon Abioton – Um Estudo Fotográfico e Histórico sobre a Casa de Nagô”, editado em forma de livro. Foi também vencedor do XI e XIV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia e do prêmio Conrado Wessel, com os projetos “Na Trilha do Cangaço – Um Ensaio pelo Sertão que Lampião pisou” e “Visões de um Poema Sujo”, inspirado na obra “Poema Sujo” do poeta Ferreira Gullar.

Fotografia de imersão

Ele conta que fotografar espaços ritualísticos é um trabalho de conquista. Chega a ficar três meses sem pegar na câmera, apenas pesquisando e vivendo a realidade que pretende retratar. “Tenho muito prazer nessa etapa de trabalho, nessa coisa de ser meio antropólogo. É quando a informação está para derramar que entro em campo. Quando, de tudo o que ouvi, já sei o que quero transformar em imagem”, revela. E esse intercâmbio com os pais e mães de santo, com os tambores e outras tradições, o tornou reconhecido e fez com que sempre fosse convidado para participar do calendário das manifestações. São quase mil terreiros espalhados pelo Maranhão.

Visões de um poema sujo / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Imagem da série “Visões de um poema sujo”, trabalho inspirado no Poema Sujo de Ferreira Gular / Foto: Márcio Vasconcelos

Com grande influência da antropologia, Márcio é sempre procurado por pesquisadores da área por seu enorme acervo de cultura popular. “Costumo ser solicitado no momento de conclusão de teses. Eles acham que o principal é escrever, mas entendem que só a escrita não é capaz de passar tudo o que viram em campo”.

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Fotografia: Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Casa da Avo de Lampiao / Fotografia: Márcio Vasconcelos

Casa da Avo de Lampiao / Foto: Márcio Vasconcelos

Atualmente, em paralelo à pesquisa sobre a cultura negra, ele tem se dedicado a projetos de fotografia mais conceituais. No premiado “Na Trilha do Cangaço – Um Ensaio pelo Sertão que Lampião pisou”, Márcio reconstruiu o caminho feito por Lampião, desde onde nasceu até sua morte. Nesse caminho, registrou pessoas e paisagens que marcaram parte da história brasileira. Mais conceitual ainda é o trabalho que ele chamou de “Deslocação”, com pessoas nuas e cabeças de boi. “Esse trabalho mostra o desassossego do homem do campo e o bicho na terra. O bicho tá morrendo pela falta de água e pela escassez e o homem quer sair do campo pela falta de oportunidade. Penso no homem como ser híbrido. Essa deslocação desse bicho híbrido, que não sabe pra onde vai, acaba morrendo e voltando. Foge um pouco da documentação e da pesquisa”, ressalta.

Seu último trabalho “Visões de um poema sujo”, exibido em maio deste ano, trata de uma reinvenção fotográfica dos versos do livro de Ferreira Goulart, também maranhense, escrito durante seu exílio, em 1975. São 40 fotografias inspiradas na obra que registra e reinventa a cidade do poeta, que nasceu e viveu em São Luís nos anos 30 e 40 do século XX. Poema Sujo foi escrito de maio a outubro de 1975, quando Gullar estava exilado em Buenos Aires, durante a ditadura militar. “Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus mangues e obscenidades”, completa.

Márcio Vasconcelos / Fotografia: divulgação

Márcio Vasconcelos / Foto: divulgação


Matéria publicada na edição edição 12 da revista iDeia Design (www.revistaideia.com)

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