A matéria “O design e a política do dia a dia” foi elaborada pela Canteiro e publicada na edição 8ª edição da revista iDeia Design (www.revistaideia.com).

Quando o pesquisador Frederick van Amstel começou a estudar jornalismo, a Internet ainda despontava no Brasil e ele já acreditava no potencial revolucionário do meio digital. Na faculdade, ele percebeu que as grandes transformações na comunicação não ocorrem por causa dos meios, mas por causa das pessoas que os utilizam e o constroem, a partir de lento processo de mudança cultural. Ao buscar as pessoas revolucionárias, encontrou a “tribo dos designers” que, para ele, são os responsáveis por fazer a mudança acontecer num campo político completamente diferente: o dia-a-dia.

van Amstel é editor do blog Usabilidoido e, atualmente, vive na Holanda, onde realiza pesquisa de doutorado sobre design participativo na Universidade de Twente. Ele foi jurado dos concursos IF Design Awards e Peixe Grande e prestou consultoria em Design de Interação para empresas como Electrolux, InfoGlobo, Magazine Luiza, Tramontina e Duty Free Dufry. Em entrevista à iDeia, Frederick aborda como o design, ao invés de empobrecer a atividade humana, pode intervir no desenvolvimento e na valorização das pessoas, a partir de um pensamento mais expansivo e participativo.

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Planejamento colaborativo de um centro de diagnóstico | Foto: arquivo pessoal Frederick van Amstel

Revista iDeia: Como você define o conceito de design expansivo? Como ele pode contribuir para o desenvolvimento humano?
Frederick van Amstel: Hoje em dia é cada vez maior o design que, intencional ou não, empobrece a atividade humana, chegando mesmo a torná-la desnecessária devido à automação. E, não é preciso imaginar robôs futurísticos para sacar que o design pode empobrecer a atividade humana; as redes sociais, os celulares, os produtos de ostentação e os apartamentos minúsculos já estão aí para isso. O design expansivo consiste em criar espaços para que as atividades do dia-a-dia não sejam comprimidas, aceleradas, fatiadas e embaladas em pacotes.

Se as pessoas estão cansadas da rotineira falta de espaço para suas atividades e os designers estão dispostos a fazer algo a respeito, então o design expansivo é uma tese relevante. Slow food, intervenções urbanas e produtos afetivos são exemplos atuais do que eu chamaria de design expansivo. A questão que eu ponho aos designers e interessados é: que outros tipos de design podemos criar se focalizarmos no desenvolvimento da atividade humana?

Ri: Com o Design de Interação é possível criar experiências de interação não só na Web. Como ele pode ser incorporado em outros ramos do design e em outras áreas do conhecimento?
Fva: Design de interação diz respeito à maneira como as pessoas podem interagir socialmente por meio de tecnologias. A maior parte dos especialistas nessa área trabalha com produtos de informação, tais como websites e aplicativos. Porém, conheço alguns profissionais experimentando essa abordagem com eletrodomésticos, brinquedos e, até mesmo ambientes.

Em meu doutorado, estou trazendo minha experiência no design de interação para a arquitetura e o resultado tem sido bem interessante. Pensar um prédio como um espaço de interação abre caminhos para a arquitetura contribuir para o desenvolvimento de atividades humanas, não só no quesito estético, mas também no quesito usabilidade.

Ri: Como o design emocional vem rompendo com a linha funcionalista do Design, muito influente no Brasil, que ainda acredita que a forma de um objeto segue sua função?
FvA: O funcionalismo se propõe a colocar a função dentro do produto, como se fosse parte da forma, daí o dito “a forma segue a função”. Essa abordagem cai por terra quando o usuário encontra outra função para o produto, que não aquela pensada pelo designer. A gente faz isso o tempo todo em nosso dia-a-dia e nem nota. A função da cadeira não é para alcançar algo no topo do armário, nem tampouco é função do armário guardar coisas em seu topo. A cadeira é projetada para sentar e o armário para guardar objetos dentro.

Apesar de concordarmos que as funções “originais” são melhores, continuamos a subir na cadeira e guardar coisas no topo do armário. Isso porque não agimos racionalmente o tempo todo. O dia-a-dia, em especial, é o espaço que encontramos para nos aliviar da exigência de racionalidade dos estudos, do trabalho, da economia e da política.

O design emocional explora essas “outras racionalidades” do ser humano, deixando de lado a paridade entre forma e função. O resultado do design emocional, o produto afetivo, não tem uma função aparente, explicada pela forma. A forma sequer remete a um símbolo, a outra coisa. O produto afetivo seduz o usuário pelo material, pela cor, pelo cheiro, pela interação, enfim, pela experiência sensorial imediata que proporciona. Pode não ter função alguma, mas a gente quer usar. Isso pode parecer irracional num primeiro momento, mas, considerando o contexto de empobrecimento da atividade humana que mencionei anteriormente, o produto afetivo pode ser a esperança de começar uma nova atividade.

Ri: Como o design livre pode contribuir para uma sociedade mais criativa?
Fva: Design livre tem a ver com meu lado ativista. Sabemos muito pouco da origem dos produtos que estão ao nosso redor – como eles foram projetados, com quais materiais; qual foi o impacto social e ambiental da fabricação. Se essas informações estiverem livres para os usuários, eles podem não só tomar melhores decisões de compra, como também continuar o próprio projeto do produto através de customizações e gambiarras.

Em longo prazo, o design livre levaria a uma conscientização maior do papel do design na sociedade, principalmente, do potencial que oferece para que as pessoas desenvolvam seu potencial criativo no dia a dia. Ao invés de usar passivamente um produto do jeito que ele foi projetado pra ser usado, no design livre o usuário usa de uma forma diferente, muito mais criativa do que a original.

Diversas iniciativas atuais estão criando condições para libertar esse potencial criativo do usuário: wiki do produto, código-fonte aberto, impressoras 3D, laboratórios de colaboração, etc. As consequências dessas práticas em larga escala não podem ser antecipadas, mas acredito que serão positivas.

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Frederick van Amstel | Foto: arquivo pessoal Frederick van Amstel

Ri: O Open Design rompe com algumas ideias fortes no design, como a questão da autoria. Como essa proposta pode ser absorvida pelos designers e pelo mercado?
FvA: Embora exista um culto gigantesco à autoria no design, nem todos os designers estão em busca de fama. Para a maioria, a motivação principal é colocar boas ideias no mundo. O problema é que muitas delas acabam guardadas numa gaveta só porque o designer não teve recursos para registrá-la, não encontrou um investidor ou não conseguiu terminar o projeto.

Disponibilizar a ideia num repositório de código aberto público abre a possibilidade para algum interessado continuar o projeto. Pode ser que ele roube a ideia sem dar créditos, mas, pelo menos, a ideia foi colocada no mundo. Isso não será justo se alguém ganhar dinheiro com o roubo da ideia, porém, fará todo sentido se o produto for usado para fins não lucrativos, ou seja, suprir demandas sociais não exploradas pelo comércio.

Ri: Por que o open design pode ser considerado uma proposta política?
FvA: Todo design é uma proposta política, porém, é da política do dia-a-dia que estou falando. Disponibilizar o código-fonte do produto é uma opção que o designer tem de promover a criatividade no dia-a-dia, superando o consumo passivo. O código-fonte aberto torna o produto um bem público, podendo ser utilizado para aprender uma determinada técnica ou para criar novos produtos.

O problema é que no design, o código-fonte não é suficiente para que isso aconteça. Os desenhos em 2D ou 3D de um produto não contam toda a história. Para continuar um projeto, é preciso ter acesso às decisões que levaram àquele desenho. Por isso, eu prefiro usar o termo design livre ao invés de open design: é preciso mais do que disponibilizar códigos-fonte abertos, é preciso projetar em público e documentar o processo. Isso sim é uma proposta política revolucionária!

Imagine se os estádios da Copa do Mundo tivessem sido projetados assim? As chances de corrupção seriam muito menores, pois haveria milhões de fiscais observando o projeto.

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